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- OPINIÃO -


Divulgar o Património

Nos monumentos e palácios foi prática comum até há poucos anos haver visitas guiadas, eram tempos em que os quadros de pessoal desses serviços eram compostos por guardas (na altura assalariados), jardineiros, pessoal de limpeza, raras vezes administrativos e um conservador ou director.

Mudam-se os tempos e também as vontades, e os guardas são proibidos de fazerem visitas guiadas. Ninguém avança com razões objectivas para o facto até porque continuam a existir visitas guiadas feitas por estagiários de turismo, por técnicos e até por voluntários, mas agora para públicos seleccionados: escolas, grupos de terceira idade e claro visitantes importantes. Para quem já passou muitos anos dentro destes serviços o argumento da preparação para a função não colhe, nós ouvimos o que é dito hoje e por vezes garanto que é difícil conter o riso, tantos são os disparates debitados. Quanto a línguas, talvez a maior limitação existente, registe-se que poucas pessoas fazem as visitas em línguas estrangeiras, técnicos incluídos, apesar da tal preparação que se diz que têm.

O público, principalmente o português, reclama pela falta de visitas guiadas em monumentos e palácios mas as reclamações vão para a gaveta, porque nos serviços continua a existir um espírito elitista (mas saloio) que não conduz a nada. Assim se divulga o património...

 

RADICALISMO

A acusação de radicalismo, entre outras coisas, é um completo disparate que só merece resposta porque algumas coisas que vamos dizer são do conhecimento do cibernauta que usou o termo. Que diría então, se aqui fosse divulgado o facto de que os últimos ministros da Cultura nunca tiveram tempo para visitar os museus e monumentos por si tutelados? Se fosse dado eco ao rumor de que se prepara a entrega de alguns monumentos classificados a entidades de direito privado? Que os cortes orçamentais e as dificuldades burocráticas impedem o recrutamento de pessoal para assegurar a abertura de serviços? Que existem monumentos que chegaram a um estado de degradação nunca visto, divulgando casos concretos? E se fosse colocada em dúvida a legalidade da cobrança às escolas, dos serviços de animação praticados em alguns serviços?

A liberdade de expressão e o direito ao associativismo são direitos de que não abdicamos. As ideologias de cada um merecem-nos o maior respeito e temos mantido as nossas críticas e divulgado os nossos objectivos, há mais de 11 anos, a bem do público que nos visita e dos trabalhadores dos museus e monumentos. Talvez seja a coerência de actuação o que mais incomoda. Será?

O Ministério da Cultura colocou na imprensa de 11/4/2001 um comunicado assinado pela Directora do IPM e pelo Presidente do IPPAR, onde anuncia algumas medidas só comunicadas aos trabalhadores no dia 10 de Abril de 2001. Estas medidas demonstram claramente que as consequências do DL 55/2001 já se fazem sentir, como aliás tinha sido vaticinado pela Federação dos Sindicatos da Função Pública durante a discussão do diploma. É positivo que tenha ficado claro neste documento que a dignificação e actualização da carreira de guarda de museu se adequou à prática existente, reconhecendo que as tarefas agora expressas no conteúdo funcional da nova carreira de vigilante-recepcionista, há muito que são  desempenhadas pelos actuais guardas de museu. 

Contra o esquecimento

Para além das injustiças do DL 55/2001, nomeadamente por não reconhecer a especificidade das diversas carreiras, não respeitar a retroactividade a Janeiro de 1998 e proceder a transições injustas, existem muitos outros assuntos que continuam sobre a mesa e que não estão esquecidos.

A eterna questão dos horários, que não existem e têm dado origem a inúmeros problemas, é uma prioridade. Com a legislação actual que diría o ministério se os guardas de museu decidissem não trabalhar aos sábados à tarde e domingos? O vazio legal em matéria de horários neste sector atira-nos para a lei geral e sendo assim esta é uma das possíveis interpretações.

Outros assuntos também estão em discussão como o trabalho para entidades terceiras durante as cedências de espaços, o abono para falhas, os fardamentos e outras questões que se prendem com a higiene e segurança no trabalho e problemas localizados.

Esperamos que haja disponibilidade da tutela para se encontrarem as desejadas soluções.

ABONO  À  LUPA

Havendo ainda dúvidas por parte do IPPAR quanto ao pagamento do abono para falhas, "O Guardião" investigou um pouco melhor o caso para esclarecimento do instituto. Pela fórmula de cálculo do referido abono chegamos a um valor que ronda os 4 Euros/dia quase 800$00 na moeda antiga. Depois deste cálculo verdadeiramente simples fomos indagar junto de quatro funcionários de dois serviços dependentes quanto teríam recebido num dos últimos meses. A tarefa que podería até ser simples foi um verdadeiro quebra-cabeças para não dizer uma quase impossibilidade.

Por não existirem recibos referentes a estes pagamentos (falta denunciada há muito) houve que utilizar a informação disponível nos próprios serviços e a memória dos funcionários para apurar com alguma aproximação o valor diário verdadeiramente recebido por cada trabalhador. Também aqui se chegou a resultados diferentes e a oscilar entre 60 cêntimos/dia e 1 Euro e pouco/dia .

Lamentamos o pouco rigor da informação recolhida mas podemos concluir que nestes dois serviços ninguém está a receber o que lhe é devido. Complementarmente podemos afirmar que a estes serviços são atribuídos dois abonos para falhas/dia (vá-se lá saber com que fundamento) independentemente do número de pessoas que esteja de facto a trabalhar nos caixas da bilheteira e da loja, que segundo também nos foi dado a perceber nunca são apenas dois funcionários. Conclui-se que o pagamento está a ser feito "por quotas" e partindo destas é feita uma distribuição equitativa. Por último dir-se-ía que o IPPAR desconhece de facto quantos funcionários trabalham com valores em cada serviço e não fez qualquer diligência em saber a realidade limitando-se a dizer que o assunto estava resolvido sem na verdade estar.                                    Dezembro 2003