OPINIÃO

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SEM OBJECTIVOS

Apesar de muitos discursos sobre avaliação do desempenho, sobre produtividade e sobre reformas, tudo continua na mesma, para não dizer pior, na Cultura. Temos páginas com anúncios de subsídios para o cinema e para produções teatrais, já no que concerne a museus, palácios e monumentos vemos notícias, que a comunicação social lá consegue arrancar a ferros,  de actividades que ainda vão acontecendo apenas pela carolice de alguns que se recusam a desistir. Ninguém consegue saber quais são os objectivos do Ministério da Cultura para a área do Património nem os projectos a curto e médio prazo que a tutela pretende atingir.

Falar com o senhor ministro é tarefa impossível, do IPM sabe-se um pouco mas ficamos pelas dificuldades pois todos sabem que não existem recursos humanos nem materiais, e do IPPAR, salta aos olhos que não há vontade de receber nem sequer os chefes de serviço quanto mais os trabalhadores. Este é o panorama dum ministério que representa fielmente a política cultural deste governo.

Temos para nós que o ministério não acabou, ainda, para não fazer-mos má figura no panorama europeu. As reformas são um nado morto, como era previsível, a produtividade sem objectivos não pode ser avaliada e a motivação dos trabalhadores é proporcional à indiferença dos dirigentes deste ministério moribundo.                                                                                                                                                                                                                                                           06/05/2004

Aumento de preços

A solução encontrada pelo Ministério da Cultura para a penúria de meios materiais foi o aumento dos preços de entrada nos museus e monumentos. As opiniões dividem-se sobre o assunto, uns concordam argumentando com os preços praticados noutros países, outros discordam aludindo que os preços já são altos para as posses dos portugueses.

Não queremos dar uma opinião pessoal, que naturalmente temos, mas apenas recordar alguns factos que deveríam ter sido ponderados antes desta decisão. Para começar temos os agentes turísticos que elaboraram os seus programas no pressuposto dos preços em vigor no princípio do ano, e não estavam certamente a prever os aumentos, nem terão sido informados com a devida antecedência. Os editores de guias turísticos, que lançam anualmente os roteiros também induzem, ainda que involutariamente, os turistas em erro por falta de informação atempada. E por último temos o facto de neste primeiro trimestre se ter registado uma diminuição dos visitantes nacionais.

Desconhecemos se estes factores terão sido considerados durante o processo de decisão, sabemos no entanto que sería desejável que a informação fosse conhecida no final do ano passado para entrar em vigor agora. Também há que prever que surjam as críticas que recordando este aumento, venham exigir melhor qualidade de serviço e mais actividades o que também não nos parece ter sido programado. Oxalá tenhamos o pessoal necessário para receber os visitantes e oxalá apareçam as exposições ... a bem da Cultura.                                                                   06/05/2004

AUTO-ESTIMA

Figuras gradas da nossa sociedade, políticos e não só, resolveram arrancar com uma campanha para elevar a auto-estima dos portugueses. É com toda a certeza uma consequência do "discurso da tanga" que há cerca de dois anos nos foi impingido. 

No país do fado, muito sentido e dorido, que é a vida neste jardim à beira mar plantado pode dizer-se que é uma ideia como qualquer outra. Nós até estamos num país desenvolvido (?) onde quase todos têm frigorífico, até somos do que mais pagamos impostos indirectos (que incidem sobre todos independentemente da riqueza de cada um), nos impostos directos quase só os trabalhadores por conta de outrem é que os pagam, até temos empresas que anos a fio apresentam saldos negativos e mesmo assim os seus donos teimam em comprar carros de luxo, enfim, um verdadeiro paraíso. Temos um país de sucesso onde ser normal é ser saloio e retrógrado e um telemóvel basta para nos tornar quase iguais.

Alegremente fala-se do desemprego como uma consequência da lógica do mercado, da insegurança dos postos de trabalho como um factor de racionalização e de produtividade e das vitórias no futebol como factores favoráveis à retoma económica.

O povo português que eu conheço é diferente. Preocupa-se com as pessoas, trabalha para ter uma vida digna, paga os impostos e não bufa, espera nas filas do IRS, desespera nas urgências dos hospitais, conta os trocados quando vai às compras, sobra-lhe mês no fim do ordenado e acima de tudo, não acredita na maioria das promessas dos políticos. Claro que só conheço pessoas normais, cuja maior ambição não é o sucesso mas sim andar de cabeça erguida e serem felizes. Estes portugueses têm elevada auto-estima, o seu desagrado e por vezes o protesto, fica-se pelas injustiças e por quem as pratica.                                                                                    25/5/2004